O PECADO
(Por Paulo César Paes)
“Quanto mais santo alguém é, tanto mais sente aquela luta”. (Martinho Lutero)
Para Gustaf Aulén (2003), pecado é o conceito que não pode ser usado, senão num sentido religioso. A significação do conhecimento do pecado pode ser definida somente conforme a revelação divina ilumina o fato do pecado.
Pecado é aquilo que quebra a comunhão com Deus. A essência do pecado, entretanto, é mais estreitamente definida como descrença. Se, na fé o homem é governado pela vontade amorosa de Deus, a essência do pecado consiste em que o homem não é dominado por Deus, mas é alguma coisa separada dele. Este outro poder é o ego. A essência do pecado é, portanto – negativamente – a descrença e – positivamente – o egocentrismo.
Pecado, deste ponto de vista, não são simplesmente atos isolados, ou alguma coisa imperfeita, mas uma direção perversa da vontade, que implica num desvio do destino essencial dado por Deus ao homem. Pecado é, portanto, uma magnitude especificamente definida e não pode ser atribuído ao contraste indefinível entre o finito e o infinito.
É claro que a fé cristã não conhece nenhuma divisão do homem dentro de uma parte inferior e sensória que é o assento do pecado e, uma parte superior e espiritual, que está fora da arca do pensamento.
Ainda segundo Aulén, a relação da consciência ou sentimento de pecado para com a fé não pode ser psicologicamente esquematizada, quer seja no sentido de que a fé “madura” seria um pré-requisito para a consciência de pecado, ou que a consciência “madura” de pecado é um pré-requisito para a fé.
Quando a fé cristã entende o pecado como descrença e egocentrismo e, consequentemente vê o pecado como uma vontade perversa, hostil à vontade divina, segue-se que a fé não pode dividir o homem em uma parte mais baixa, que seria o assento do pecado e, em parte mais alta, que ficaria fora dessa esfera. Tal divisão é freqüentemente sugerida. Tais teorias podem variar, mas o princípio essencial é que o pecado pertence à parte “sensual” do homem, enquanto que sua parte “espiritual” tem ficado intacta desta corrupção. Esta teoria tem, na realidade, aparecido no cristianismo mesmo nos mais antigos tempos, e tem vindo dos mistérios e idealismos gregos.
Para Freud, a personalidade é um campo de luta entre o inconsciente e o meio social, que inculca-se no ego, manifestando-se nas aspirações deste. Atentando-nos à sua terminologia – id/ego/superego – podemos dizer que, quando há luta do id (regido pelo princípio do prazer; atemporal, impessoal e amoral) contra o ego (regido pelo princípio da realidade; parte executiva da personalidade), e vice-versa, surge o que o próprio Freud chamou de “sentimento de culpa” e que é o ponto de contato com a religião cristã.
Freud procura resolver o problema da culpa pela sublimação (um dos nossos mecanismos de defesa, segundo a terminologia psicanalítica), isto é, busca de outros motivos para a ação, mais elevados. No caso de conflitos psíquicos, tem-se a neurose, desequilíbrio causado pelo medo de ser descoberto. O sentimento de culpa não passa, pois, de mero sintoma de erro psicológico. Basta um reajuste, uma catarse, uma sublimação, para desfazer-se o conflito, e portanto, excluir-se o sentimento de culpa.
A moral para Freud seria apenas uma moral de virtudes (isto é, o bem moral consiste em libertar nossa potencialidade) e não moral de mandamentos (isto é, o bem moral é imperativo exterior que o homem tem de controlar). Esta terminologia é de Scheleiermacher, que acrescenta a ética de valores (bem moral como “goals” – meta, alvo).
Para Carl G. Jung, discípulo de Freud, o self não é mero nome convencional, mas uma realidade. Se para Freud não há ego contínuo, para Jung o ego tem um destino. O senso de culpa indica, para ele, a existência de uma vontade de ir ao ideal de si próprio, isto é, ter cuidado do ego ou ficar parado, estagnado, por causa das dificuldades.
Estabelecido esse conflito, surge o complexo de culpa. O homem, divino por natureza voa para o sublime; contudo, como é parte desse mundo, corre o risco de satisfazer-se com as situações. Uma espécie de idealismo (filosófico) subjaz à concepção psicológica de Jung.
Segundo Kierkegaard (2006), pecamos quando, “frente a Deus ou da idéia de Deus, desesperados, não queremos, ou queremos ser nós mesmos”. Desse modo, o pecado é fraqueza ou desafio elevados à “suprema potência”. Portanto, é condensação do “desespero”. O acento recai aqui sobre estar “perante” Deus ou ter a idéia de Deus. Sua natureza dialética, ética, religiosa, é a idéia de Deus.
Ainda em Kierkegaard, o dogma antigo tinha razão em dizer que pelo fato de ser contra Deus elevava o pecado a um infinito de potência. O erro estava em considerar Deus como de certo modo exterior a nós, admitir, por assim dizer, que nem sempre se peca contra ele. Porque Deus não nos é exterior. Nem só por vezes se peca frente a Deus, ou, antes, o que transforma um pecado numa falta humana é a consciência de que o culpado tem de estar frente a Deus.
Condensa-se o desespero à proporção da consciência do eu.
Kierkegaard diz que o cristianismo subordina tudo ao pecado:
“Nós procuramos expô-lo em todo o seu rigor. Eis-nos agora perante este resultado singular, principalmente singular, de que o pecado não existe sob essa forma no paganismo, mas apenas no judaísmo e no cristianismo, e, mesmo nestes, muito raramente não resta dúvida...A vida da maior parte dos homens está, a considerá-la com uma indiferença dialética, tão afastada do bem – a fé -, que é quase demasiado a-espiritual para se poder chamar pecado, quase demasiado mesmo para se chamar desespero.
Verdade é que não há mérito algum, longe disso, em ser um verdadeiro pecador. Por outro lado, como conseguir achar uma consciência essencial do pecado – e é isso que o cristianismo quer – numa vida tão cheia de mediocridade, a tal ponto decaída em macaqueação dos “outros” que é quase impossível considerá-la pecado, demasiado quase a-espiritual para ser assim designada, e, como rezam as Escrituras, não merecendo senão “ser vomitada”? (KIERKEGAARD, 2006. p.93).
Vale a reflexão de entender que somos “todos pecadores”, conforme afirmou o apóstolo Paulo. Porém, quando questionamos o fato de um cristão continuar pecando e, em muitas vezes, cometendo o mesmo pecado, isso sim é algo que podemos encontrar resposta através da ciência psicanalítica que aborda, por excelência, a busca e a investigação psicológica afim de conceder respostas a partir de experiências infantis.
Não que Freud e sua psicanálise possa explicar tudo, envolto na cortina da ciência, porém, esta pesquisa se propõe e ousa colocar em pauta os resultados que a psicanálise tem conseguido em mais de um século de vida.
Kierkegaard experimentou a expressão “estacionar no pecado”:
“Estacionar no pecado é pior do que cada pecado isolado, é o pecado por excelência. Nesse sentido, com efeito, é que permanecer no pecado é continuar o pecado, é um novo pecado. Não se julga assim de ordinário. Pensa-se que um novo pecado é engendrado pelo pecado atual. Mas a razão, bem diversamente profunda, é que permanecer no pecado constitui um novo pecado. Por isso Shakespeare, mestre psicólogo, faz dizer a Macbeth (III,2) “Coisas mal começadas tornam-se elas mesmas fortes pelo mal”. Quer dizer, o pecado se engendra a si próprio como uma conseqüência, e que ainda ganha mais força nesta continuidade interior do mal. Porém jamais se pode a esta conclusão considerando apenas os pecados isolados.
A maioria das pessoas vive por demais inconscientes de si para suspeitar quais sejam as conseqüências. Devido a uma ausência do vínculo profundo do espírito, a sua vida, seja por encantadora ingenuidade infantil, seja por necessidade, não é mais do que uma mistura sem nexo de um pouco de ação, de acaso, de acontecimentos. Vemo-las umas vezes praticando o bem, depois fazer o mal. (KIERKEGAARD, 2006. p.98-99
Para o teólogo dinamarquês, é “daqui que parte o cristianismo, do dogma do pecado, portanto do indivíduo”.
Em suas Confissões, Agostinho fala da dificuldade de não pecar:
“E que sentimento era aquele de minha alma? Certamente, assaz torpe e eu um desgraçado por alimentá-lo. Mas, que era na realidade? E quem há que conheça os pecados? Era como um riso, como que a fazer-nos cócegas no coração, provocado por ver que enganávamos aos que não suspeitavam de nós tais coisas, e porque sabíamos que haviam de detestá-las. (AGOSTINHO, 2007. P.61)”
Friedrich Nietzsche(2007) afirma que o conceito de “culpa” foi inventado conjuntamente com o instrumento torturante que o completa; o conceito de “livre-arbítrio”, para confundir os instintos, para fazer da prevenção contra os instintos uma segunda natureza! No conceito de “altruísmo”, de “renúncia de si mesmo” há verdadeiros signos de decadência: ser atraído pelo que causa prejuízo, não poder encontrar o que lhe seja útil, a destruição de si mesmo elevada a “virtude”, o “dever”, a “santidade”, a “divindade” no homem!
Freud afirma que o sentimento de culpa conseqüente à continua tentação, a angústia da expectativa como medo da punição divina são “conhecidos por nós no campo religioso bem antes do que no da neurose”. Talvez por causa das componentes sexuais misturadas, talvez por “efeito de propriedades gerais das pulsões, a repressão pulsional se revela insuficiente e incompleta também na vida religiosa. Recaídas totais no pecado são até mais freqüentes nos fiéis dos que nos neuróticos”.
Para a psicanálise, pecamos por que somos humanos. Pecamos por causa dos conflitos intrapsíquicos. Se não pecamos é porque conseguimos reprimir nossos desejos e nossos instintos. Porém, a mente humana se vê impotente ante às perturbações internas.
Freud chegou a dizer que seu destino era perturbar o sono da humanidade e, por fim, concluiu: “Passei a maior parte da minha vida trabalhando na destruição de minhas próprias ilusões e naquelas de toda a humanidade”.
Fonte:
PAES, P. C. Psicanálise da Religião - A Dimensão Psíquica da Religião com Ênfase no Cristianismo. Dissertação de Mestrado, UFPE.